PS: O primeiro da seção de "faz de conta" aqui do blog. E "faz de conta" é o que faz pensar.
Sabe meu filho, a violência com que as pessoas te olham e desviam o olhar fingindo não ter ver, é cortante. Eu sei meu filho, esse mundo está mesmo muito violento, o seu silêncio é violento, esse escuro é violento.
Eu estava me lembrando de quando você era pequeno e caía de bicicleta, você chorava e vinha logo pro meu colo, como agora, mesmo sabendo que ia levar uma bronca! Você sempre foi uma criança que só aquietava quando estava assim, deitado no meu colo e eu te fazendo cafuné. Como a gente gostava disso não é mesmo?
Sua avó morria de medo de você ir pra escola e te machucarem por lá, nona de primeira viagem sabe como é né? Sempre te cobriu de cuidados, adorava fazer aqueles bolinhos que você se empanturrava, bons tempos...
Meu filho, as pessoas estão cochichando de longe, devem estar me achando uma louca. Pobres... Nesse mundo sem muita coerência, meu filho, louco é quem fala bom dia, devolve troco errado e come verduras. Mas eu não me importo viu filho? Podendo estar aqui te falando tudo isso é o que mais importa.
Você me perdoa, tá meu pequeno grande homem? Não sei até quando poderei ficar aqui te fazendo cafuné e falando coisas boas de se ouvir nessa hora. Logo eles chegam e o martírio começa, mas não fique preocupado, eu estarei pertinho de você sempre e qualquer coisa é só procurar sua avó que ela saberá o que é melhor. Sabendo que ela estará por perto eu fico mais tranquila.
Meu filho, me perdoa por todas as vezes que briguei com você por motivos tolos, por você não colocar o tênis no lugar certo, por não comer comida ou por comer porcaria de madrugada, perdão pela implicância com aquela sua namorada que eu detestava, perdão pelas críticas as musicas que você ouvia, perdão por ter sido uma mãe muito pegajosa, perdão por não estar por perto quando você precisou, perdão por deixar que agora você faça sua caminhada sozinho e precoce. Perdão por não poder mais ser plenamente sua mãe.
Eu te amo meu filho, eu te amo.
A mulher abraça desajeitadamente os ombros e a cabeça do filho, enquanto os policiais vão isolando a área na qual ela se encontra. É nesse momento que os populares se aglomeram em volta da fita amarela, para ver melhor e indignadamente a fotografia do momento.
Com um certo cuidado dois policiais retiram lentamente a mulher da calçada, deixando apenas o rapaz no chão. A mulher olha para aquele corpo sem que caísse uma lágrima dos olhos. Assiste ao IML executar seu trabalho no silêncio da rua tomada pela multidão. Na pouca claridade da luz do poste, o vermelho do carro da polícia se confunde com o vermelho da calçada, com o vermelho da sua roupa, com o vermelho que grita estado de emergência para os olhares violentos.
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