segunda-feira, 4 de junho de 2012

Venho por meio desta

     "Guardo pra te dar, as cartas que eu não mando"
     Assim bem sabe o professor Bartleboom, de Oceano Mare, um romance italiano. O tal professor escreve cartas, muitas delas e as guarda em uma caixa. São cartas sem destinatário, sempre abertas, com um que de esperança da chegada dessa donna digna se ler toda a vida que ela não viveu. Talvez não haja na música essa esperança do que ainda seremos, haja sim o pesar "do que já não somos nós", mas o fato é que bem ou mal, as cartas estão aí, nos dois enredos.
     Ouvindo a música e viajando na batatinha, quem apareceu diante dos meus olhos fechados com uma caixa na mão? O professor Bartleboom. Quando você o encontra, a vontade é de dizer ao pobre que talvez as coisas não sejam bem assim, talvez essa donna não merecerá tamanho esmero, mas que ainda assim será a tão esperada. O mundo de hoje não dá muito espaço para idealizações ou esperanças tão frágeis, não há espaço para fragilidades. Mas agora pensando friamente, quem já não teve vontade de contar uma situação idiota para alguém e quando vamos selecionar o felizardo descobrimos que quem mais se aproxima do entendimento do fato, ainda não será será capaz de entender-lo? Ou seja, nós também temos, por vezes, alguém que na verdade não temos em matéria palpável.
     O professor Bartleboom é um investigador, um pesquisador; no momento que o romance é narrado ele está hospedado numa pousada à beira mar, justamente para descobrir onde começa o mar e onde ele termina. Coisa de maluco não? Possivelmente se trata de um doido que quer saber coisas insabíveis. Será mesmo que é insabível? Você arriscaria o que? Onde começa essa imensidão chamado mar? Não me venha com essa agora, me dizer que você nunca criou definições irreais para coisas que por naturalidade já se tem definido na cabeça?
     Você nunca definiu o amor? A saudade? A dor? O doce ou o sabor de uma banana verde? O que se sente quando se desce a montanha russa ou quando sua mãe dizia: 'a gente conversa em casa'? Será? Não há mal nenhum em admitir que todos temos um pouco de... poetas! Aaaah, eu sei que você esperava o óbvio, o louco, mas veja, você também já deve ter definido a loucura e ela era algo contraditório, fora do comum; e poeta é o cara que consegue manipular todo esse não fazer sentido de maneira a te comover no seu marasmo normal. Mas então pense comigo, quanta loucura não existe no comum? Que tanto de normalidade existe em dormir a noite quando o céu tá cheio de luzinhas? Quanta normalidade existe em saber que tem um sol, daquele tamanho pairando sob nossas cabeças e coisas bem menores, como uma melancia, que cresce no chão. E ainda tem a jaca, que toda desajeitada como só ela, cresce em árvore! É, esse mundo é muito doido mesmo...
     Parece que chegamos em um acordo. E isso tudo por conta das cartas que eles não mandam. Bom, eu tive uma ideia e por ela já estou me retirando. Vou escrever uma carta contando sobre o tempo, sobre como ele é fanfarrão e digno das maiores confusões. Aliás...


Uma sacada qualquer, 04 de junho de um ano que pode ser esse, o anterior ou o que ainda está por vir.


De sua,

N.W.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Olhares violentos

PS: O primeiro da seção de "faz de conta" aqui do blog. E "faz de conta" é o que faz pensar.



Sabe meu filho, a violência com que as pessoas te olham e desviam o olhar fingindo não ter ver, é cortante. Eu sei meu filho, esse mundo está mesmo muito violento, o seu silêncio é violento, esse escuro é violento.
Eu estava me lembrando de quando você era pequeno e caía de bicicleta, você chorava e vinha logo pro meu colo, como agora, mesmo sabendo que ia levar uma bronca! Você sempre foi uma criança que só aquietava quando estava assim, deitado no meu colo e eu te fazendo cafuné. Como a gente gostava disso não é mesmo?
Sua avó morria de medo de você ir pra escola e te machucarem por lá, nona de primeira viagem  sabe como é né? Sempre te cobriu de cuidados, adorava fazer aqueles bolinhos que você se empanturrava, bons tempos...
Meu filho, as pessoas estão cochichando de longe, devem estar me achando uma louca. Pobres... Nesse mundo sem muita coerência, meu filho, louco é quem fala bom dia, devolve troco errado e come verduras. Mas eu não me importo viu filho? Podendo estar aqui te falando tudo isso é o que mais importa.
Você me perdoa, tá meu pequeno grande homem? Não sei até quando poderei ficar aqui te fazendo cafuné e falando coisas boas de se ouvir nessa hora. Logo eles chegam e o martírio começa, mas não fique preocupado, eu estarei pertinho de você sempre e qualquer coisa é só procurar sua avó que ela saberá o que é melhor. Sabendo que ela estará por perto eu fico mais tranquila.
Meu filho, me perdoa por todas as vezes que briguei com você por motivos tolos, por você não colocar o tênis no lugar certo, por não comer comida ou por comer porcaria de madrugada, perdão pela implicância com aquela sua namorada que eu detestava, perdão pelas críticas as musicas que você ouvia, perdão por ter sido uma mãe muito pegajosa, perdão por não estar por perto quando você precisou, perdão por deixar que agora você faça sua caminhada sozinho e precoce. Perdão por não poder mais ser plenamente  sua mãe.
Eu te amo meu filho, eu te amo.

A mulher abraça desajeitadamente os ombros e a cabeça do filho, enquanto os policiais vão isolando a área na qual ela se encontra. É nesse momento que os populares se aglomeram em volta da fita amarela, para ver melhor e indignadamente a fotografia do momento.
Com um certo cuidado dois policiais retiram lentamente a mulher da calçada, deixando apenas o rapaz no chão. A mulher olha para aquele corpo sem que caísse uma lágrima dos olhos. Assiste ao IML executar seu trabalho no silêncio da rua tomada pela multidão. Na pouca claridade da luz do poste, o vermelho do carro da polícia se confunde com o vermelho da calçada, com o vermelho da sua roupa, com o vermelho que grita estado de emergência para os olhares violentos.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O que você nunca deixaria ir embora?

Assim era a pergunta proposta para que o leitor respondesse e concorresse a um livro intitulado "Nunca vai embora" de Chico Mattoso, cuja história se passa em Cuba e eu não falarei mais, pois ainda não li e tenho vontade de me surpreender. Tratava-se de marketing óbvio para a divulgação do livro, mas me fez parar e pensar o que há nessa minha vida ou na vida em geral, que mereça essa prioridade permanente quando o assunto é transitoriedade. Não sei se você já se perguntou isso, mas pense, apenas uma coisa da qual você jamais abriria mão, algo ou alguém que você não deixaria ir embora nunca. Parece coisa de história de amor água com açúcar, mas pode não ser assim também.
Pensei durante um tempo, olhando pra capa do livro que ilustrava a página da editora e um link link me pegou de jeito. Foi então que entendi, o que não posso deixar que vá embora nunca: Eu! Eu não me deixaria ir embora nunca, não deixaria que minha alma partisse sem que eu fosse junto. Não se trata de coisas romantiquinhas, mas alma na qualidade de essência e não  é nada narcisista não, pelo contrário, me ter é a única maneira de ter alguma outra pessoa comigo, de estar no mundo, de ter o mundo comigo ou a parte dele que interessa; é só me tendo que  posso permitir que qualquer um se aproxime, caminhe junto ou faça parte de mim. É uma busca diária pelo outro, todos vivemos mais ou menos assim buscando a família, os amigos, vizinhos, e muitas outras pessoas e coisas que compõem nossa vida. Uma cigarra não canta para a casca de outra que ficou ali no tronco, cigarra canta para outra cigarra igualmente viva, igualmente barulhenta. Na verdade acho que a cigarra canta para a chuva, como dizia a minha avó, talvez todas as avós dissessem isso,  ou pelo menos a maioria delas! O fato é que eu sou a principal peça pra encaixar num outro, num mundo. O amor só é amor de fato se for ambivalente, caso contrário é arbitrariedade da natureza, que cá entre nós adora esse tipo de complicação. hahahaha
E em tempo de trânsito rápido, no qual o sinal muda de cor frequentemente, talvez algo que mereça e necessite ser permanente seja eu mesmo. E de qualquer maneira, casca de cigarra não sai do lugar, mas cigarra que canta sabe o que fazer e faz.
E você, o que não deixaria ir embora nunca?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Amor miojo

É dessa realidade que eu estou falando. Dessa em que amar é como chupar bala: vc abre, fica com a parte doce e o papel... Bom o que fazer com o papel se não jogar fora? Não serve pra muita coisa mesmo. E já que o doce acabou, vamos abrir outra bala, e outra bala, e outra bala e outra...
Sabe quanto tempo dura uma bala na boca? Quase o mesmo tempo que vive o amor que você declarou hoje para algum coitado. Não, eu não estou generalizando e dizendo que você também vive de amor miojo, 3 minutos e acabou; talvez você que esteja lendo não acredite tanto quanto eu, mas faz com que esse amor real exista e por isso eu te deixo o meu muito obrigada. Acredito nas pessoas, acredito no amor que quanto mais tempo passa, mais ele se fortalece e procuro ter a esperança sempre do mesmo tamanho. Esperança em que? Numa rapaziada que "ame menos", respeite mais e saiba que para dizer eu te amo, é necessário ter visto um eclipse solar, a passagem de um cometa ou uma chuva de meteoros; é preciso também ter assistido alguns filmes antigos como dirty dancing, a vida é bela, ghost, o poderoso chefão, entre outros. Mas se engana quem pensar que assistir e pronto tá bom, não, não! Trilha sonora é essencial. Ah, é preciso já ter ido à um concerto, um show de reggae, rock do bom, roda de samba, apresentação de banda de amigo e aquela desconhecida da faculdade (essa pode ser dispensada, nem todo mundo faz faculdade). E depois dessa salada musical, chegar a conclusão de que você gosta mesmo é de ska, bossa nova ou rap.
Talvez não seja assim tão ruim "amar menos", assim sobra tempo pra conhecer o mundo, descobrir se se gosta mesmo do vermelho ou é o amarelo a cor preferida; se macarrão é bom mesmo ou se camarão é tão ruim quanto falam. "Amar menos" não significa não amar, significa que você está amando mais, ou amará mais, o fato é que quando olhamos no espelho e sabemos o mais aproximado possível quem é que está ali, quais são seus desejos e qualidades, esse papel de bala que tornou o eu te amo será muito mais confiável e verdadeiro, porque ele deixa de ser papel de bala, amor miojo, para se tornar plano de vida e plano de vida é amor.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Challenge accepted

É tão complicado preencher o espaço do "quem sou eu" ou qualquer coisa do tipo. Será falsa modéstia, falta de treino, falta repentina do que escrever? Isso não significa que você não tenha vivido nada interessante ou que você não tenha alguma característica engraçada ou curiosa. Talvez mais alguém tenha essa dificuldade, tudo bem que por enquanto esse "alguém" aqui é ninguém, mas espero que não por muito tempo. haha
Enfim, é só uma coisinha pra que eu pudesse declarar publicamente (ainda sem público) que o desafio está aceito.
Que boas águas nos leve a textos interessantes.
Beijos marinheiros!