"Guardo pra te dar, as cartas que eu não mando"
Assim bem sabe o professor Bartleboom, de Oceano Mare, um romance italiano. O tal professor escreve cartas, muitas delas e as guarda em uma caixa. São cartas sem destinatário, sempre abertas, com um que de esperança da chegada dessa donna digna se ler toda a vida que ela não viveu. Talvez não haja na música essa esperança do que ainda seremos, haja sim o pesar "do que já não somos nós", mas o fato é que bem ou mal, as cartas estão aí, nos dois enredos.
Ouvindo a música e viajando na batatinha, quem apareceu diante dos meus olhos fechados com uma caixa na mão? O professor Bartleboom. Quando você o encontra, a vontade é de dizer ao pobre que talvez as coisas não sejam bem assim, talvez essa donna não merecerá tamanho esmero, mas que ainda assim será a tão esperada. O mundo de hoje não dá muito espaço para idealizações ou esperanças tão frágeis, não há espaço para fragilidades. Mas agora pensando friamente, quem já não teve vontade de contar uma situação idiota para alguém e quando vamos selecionar o felizardo descobrimos que quem mais se aproxima do entendimento do fato, ainda não será será capaz de entender-lo? Ou seja, nós também temos, por vezes, alguém que na verdade não temos em matéria palpável.
O professor Bartleboom é um investigador, um pesquisador; no momento que o romance é narrado ele está hospedado numa pousada à beira mar, justamente para descobrir onde começa o mar e onde ele termina. Coisa de maluco não? Possivelmente se trata de um doido que quer saber coisas insabíveis. Será mesmo que é insabível? Você arriscaria o que? Onde começa essa imensidão chamado mar? Não me venha com essa agora, me dizer que você nunca criou definições irreais para coisas que por naturalidade já se tem definido na cabeça?
Você nunca definiu o amor? A saudade? A dor? O doce ou o sabor de uma banana verde? O que se sente quando se desce a montanha russa ou quando sua mãe dizia: 'a gente conversa em casa'? Será? Não há mal nenhum em admitir que todos temos um pouco de... poetas! Aaaah, eu sei que você esperava o óbvio, o louco, mas veja, você também já deve ter definido a loucura e ela era algo contraditório, fora do comum; e poeta é o cara que consegue manipular todo esse não fazer sentido de maneira a te comover no seu marasmo normal. Mas então pense comigo, quanta loucura não existe no comum? Que tanto de normalidade existe em dormir a noite quando o céu tá cheio de luzinhas? Quanta normalidade existe em saber que tem um sol, daquele tamanho pairando sob nossas cabeças e coisas bem menores, como uma melancia, que cresce no chão. E ainda tem a jaca, que toda desajeitada como só ela, cresce em árvore! É, esse mundo é muito doido mesmo...
Parece que chegamos em um acordo. E isso tudo por conta das cartas que eles não mandam. Bom, eu tive uma ideia e por ela já estou me retirando. Vou escrever uma carta contando sobre o tempo, sobre como ele é fanfarrão e digno das maiores confusões. Aliás...
Uma sacada qualquer, 04 de junho de um ano que pode ser esse, o anterior ou o que ainda está por vir.
De sua,
N.W.